CRÍTICA | Belfast

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Em Belfast, no final dos tumultuosos anos de 1960 na Irlanda do Norte, o jovem Buddy (Jude Hill) percorre a paisagem das lutas da classe trabalhadora, em meio de mudanças culturais e violência extrema. Buddy sonha em um futuro melhor, glamoroso, que vai tirá-lo dos problemas que enfrenta no momento, mas, enquanto isso não acontece, ele se consola com o carismático Pa (Jamie Dornan) e a Ma (Caitríona Balfe), junto com seus avós (Judie Dench…

Os desafios de uma criança crescendo na década de 1960 em meio ao caos de uma cidade em conflito entre os habitantes protestantes e o catolicismo que crescia na região, é disso que trata Belfast, escrito e dirigido por Kenneth Branagh. Com uma fotografia belíssima, o longa transmite o sentimento de que cada cena, cada enquadramento, junto das falas dos personagens, formam versos que vão dando lugar a um lindo poema em torno da infância de Buddy (ou amigo em português). 

O longa alterna entre as conquistas e realizações do menino e os problemas da vida adulta que o cerca, onde ele busca a sua maneira de enfrentar ou apenas se questionar o porquê de tudo aquilo acontecer. Um ponto que chama atenção no filme é a forma como os adultos fazem questão de incluir Buddy no cotidiano, como o seu avô que sempre pergunta “mas o que você quer?”. Outro ponto forte é o tema da comunidade, todos os vizinhos, os avós, os pais, buddy e o irmão, foram criados coletivamente. Todos se conhecem, todos se cuidam, e o filme dá muita ênfase ao aspecto, é tudo muito “caseiro”, no sentido de que o que estamos assistindo é o dia-a-dia de um bairro onde os moradores sempre moraram, por assim dizer. 

Impossível não lembrar de bell hooks nesse momento, grande escritora que nos deixou no último dia 15 de dezembro. Em sua mais recente obra lançada no Brasil, “Tudo sobre o amor: outras perspectivas” (Elefante, 2021), a escritora traz um novo sentido para o amor ao retratá-lo como ação e não apenas como um sentimento. Ao longo dos capítulos, reflexões sobre as diferentes formas de amor em nossa sociedade são abordadas, e um deles é o amor em comunidade. 

É interessante notar que um dos líderes do motim protestante chama o pai de Buddy de Ranger Solitário, quando este na verdade é um dos moradores mais amados da região onde vive, mas precisa estar longe da família para trabalhar e não concorda com os movimentos anti católicos que aconteciam na cidade, chegando a ser perseguido, mesmo sendo protestante. Um detalhe a mais que deve ser mencionado é que o filme é rodado todo em preto e branco, menos as telas de cinema e o palco do teatro que ganhavam cores, como se a arte fosse ali o alívio da família e uma forma de esperança. 

Para finalizar, Belfast não é um filme com grande enredo nem grandes problematizações, é um filme que fala sobre a simplicidade do amor em comunidade, o que chama atenção é a forma como essa história é contada. Certamente garantirá boas indicações nas premiações que se sucederão, assim como já vem sendo reconhecido nos eventos de 2021.

Assistente Social, encantada por livros, filmes e séries que retratam a vida como ela é, mas não dispensa uma boa fantasia. Atualmente se aventurando a escrever sobre os incômodos e reflexões que o cinema lhe causa.