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Spencer é um longa cujo título faz referência ao sobrenome de solteira de Diana. Se passando nos anos 1990, Diana passa o feriado do Natal com a família real na propriedade de Sandringham, em Norfolk, Reino Unido. Apesar das bebidas, brincadeiras e comidas que Diana já sabe o script, esse final de ano vai ser diferente. Após rumores de traição e de divórcio, a princesa se vê em um impasse quando percebe que seu casamento…

Spencer, novo filme do diretor Pablo Larraín, narra três dias de um evento natalino na família real britânica pelo olhar de Diana. A trama foca pouco nos membros reais e mais no que poderia ser o desmoronar da Princesa de Gales ao mostrar suas fragilidades ao enfrentar a solidão da posição em que ocupa onde todos parecem estar mais preocupados em manter as tradições do que de fato cuidar de sua vulnerável saúde mental naquele momento. Cada diálogo travado entre a princesa e os demais personagens gira em torno de uma busca para enquadrá-la aos costumes da realeza, prova disto é que, mesmo casada com o grande príncipe, sua opinião não é levada em consideração nem mesmo para escolher o que vestir, pois os eventos possuem uma vestimenta composta pelos empregados. Mesmo Maggie, sua estilista e suposta confidente de Diana, atua para fortalecer a personagem diante das convenções sociais que a ocasião imprime. No fim das contas o que lhe resta é o casaco velho do pai, que se torna como que um personagem do filme, onde ela chega a trocar palavras, e o suposto espírito de Ana Bolena, a única capaz de lhe dar conselhos pensando de fato no seu bem-estar.

A propósito, toda a obra passou um sentimento de cadência, como estivesse milimetricamente calculada. Os empregados pareciam estar em um espetáculo, andavam de forma alinhada e sob uma disposição geométrica, o trabalho era ensaiado para que conseguissem deixar tudo pronto até o momento marcado. Mesmo os cachorros reais pareciam andar enfileirados, como dirá Spencer: “tudo pronto, como se já tivesse acontecido”. Uma das cenas que chama a atenção acontece entre Diana e os filhos, quando um deles questiona porque recebem presentes um dia antes do natal e não no dia, como qualquer outra pessoa. No que a princesa respondeu que lá só existe um tempo verbal: o passado. Mesmo no presente o que se vive é o passado, pois trata-se também de uma tradição antiga, como outras que irão aparecer no decorrer do filme. 

Esse incômodo que cerca a personagem durante o longa parece traduzir o que a família real sempre viveu, sobretudo os acontecimentos recentes com os príncipes William e Harry, cujos casamentos geraram grandes manchetes por não terem escolhido mulheres da aristocracia inglesa. Inclusive o mais aterrador ocorreu com Meghan, esposa de William, que sofreu episódios de racismo durante a permanência junto à monarquia, essas e outras situações levaram o casal a abdicar de suas posições. Apesar disso, a duquesa também teve que se submeter às regras reais ao ter que deixar sua profissão para viver com o príncipe. 

Apesar de ser uma trama arrastada, a construção do filme parece realmente ter sido feita para trazer desconforto ao nos imergir no caos em que se encontrava a mente de Diana nos acontecimentos da obra. Uma mulher insatisfeita com sua vida, com disfunção alimentar, problemas de imagem, praticando automutilação e um casamento falido com um príncipe que mantinha uma relação extraconjugal praticamente a olhos vistos. A atuação de Kristen Stewart, extremamente impecável, nos coloca de frente com o sofrimento de Diana. É inegável o quanto a atriz se empenhou na interpretação da personagem, inclusive com o sotaque e os trejeitos da princesa muito bem trabalhados. Certamente será uma grande aposta na disputa por uma estatueta na tão aguardada cerimônia do Oscar em 2022.

Assistente Social, encantada por livros, filmes e séries que retratam a vida como ela é, mas não dispensa uma boa fantasia. Atualmente se aventurando a escrever sobre os incômodos e reflexões que o cinema lhe causa.